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: Jun, 2007
Sócio Nº 798
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« em: 22 Dez 2009, 00:01 » |
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Boas companheiros,
O planeamento de passeios à neve está no ordem do dia. A minha experiência leva-me a recomendar que entre outras medidas se equipem com gás propano, correntes de neve previamente ensaiadas, pá, pranchas, um saco de viagem para colocarem os vossos pertences caso tenham que abandonar a autocaravana. No caso de viajarem com um animal, um saco de transporte ou gaiola para que o possam levar nos transportes públicos incluindo avião. Digo isto para que não vos aconteça o que abaixo descrevo sobre uma viagem à Serra Nevada. A 1ª parte já foi publicada neste forum há uns dois anos. Eis o relato completo:
VIAGEM À SERRA NEVADA – PARTE I
Rumei á Serra Nevada na Páscoa de 2006 com a minha copiloto, uma sobrinha, o seu filho Tiago de 6 anos e o "Baixote que é o meu fiel amigo de quatro patas. Já era bem de noite e ainda faltava percorrer cerca de 2Km duma estrada íngreme para atingir o parque de autocaravanas, quando se abateu sobre a região uma tempestade de neve com ventos fortíssimos. Subitamente senti falta de aderência e a autocaravana atravessou-se na estrada completamente incontrolável. Consegui parar antes de saír do asfalto, fui á bagageira buscar as correntes e quando me preparava para as colocar tive de me refugiar no interior pois estava a ficar enregelado. Voltei novamente para o exterior para continuar o trabalho e 2 minutos depois tive novamente que me refugiar. Repeti a cena algumas dez vezes e não consegui montar uma corrente sequer. Entretanto atrás de mim estavam já mais dois carros imobilizados. Pelo telemóvel liguei o 112 e pedi ajuda á Guardia Civil que me disse que o papel deles não era o de prestar socorro a automobilistas bloqueados pela neve e que deveria telefonar para um reboque. Telefonei para a assistência em viagem da minha seguradora em Portugal para me arranjar um reboque e também me recusou auxilio. Voltei novamente para o exterior para tentar montar as correntes e tudo em vão. Quando o Tiago se apercebeu da situação dificil em que estavamos entrou em pânico e num berreiro imparável. O cão também resolveu começar a ladrar. A autocaravana abanava com os ventos gélidos e ciclónicos no alto da montanha. O aquecimento falhou porque o butano congelou. Estava também eu quase a entrar em pânico quando me apercebi de um pronto socorro a auxiliar uma das viaturas imobilizadas atrás de mim. Fui-lhe pedir auxilio e aí sim, tive finalmente ajuda após quatro horas de imobilização sob uma tempestade no meio de nenhures. Era um prestável e abnegado funcionário da Proteção Cívil do Governo Regional da Andaluzia que começou por tentar montar as correntes e também não consegiu tão simplesmente porque eram demasiado pequenas para a medida dos peneus. Por recomendação desta boa alma só restava uma solução: abandonar a autocaravana e irmos no jeep dele até um hotel na povoação mais próxima. Já passava da meia noite quando nós os quatro mais o "baixote", com alguns pertences pessoais, abandonamos a autocaravana ainda atravessada na estrada.
VIAGEM À SERRA NEVADA - PARTE II
O funcionário da protecção cívil deixou-nos á porta do principal hotel da urbanização Solynieve. Eis-nos, cerca da uma da manhã, no olho da rua, com um frio de rachar, 3 adultos, uma criança, um cão e um saco de plástico com alguns pertences pessoais retirados á pressa da autocaravana.
Havia um só quarto vago. Tratava-se de resolver uma emergência pelo que alguém ter que dormir no chão não seria problema. Problema foi quando a recepcionista se apercebeu que um de nós tinha quatro patas e disse:- PERROS NO. Eis-nos de novo no meio da rua numa verdadeira situação de sem abrigo, deambulando à procura de hotel . Finalmente a recepcionista do terceiro hotel a que fomos bater á porta foi sensível ás nossas dificuldades e acedeu acolher-nos com a condição do cão entrar escondido. Felizmente é um rafeiro pequeno, muito obediente , muito dócil e por isso foi fácil atravessar as zonas comuns do hotel com ele escondido. Por fim, cerca das três da madrugada, estavamos em vale de lençóis. Descongelamos.
No dia seguinte, Domingo de Páscoa, Já não havia muito vento mas a neve continuou a cair abundante e ininterruptamente durante todo o dia. Todas as tentativas de arranjar um reboque foram infrutíferas. Convenci-me então que teria que ser eu próprio a remover a autocaravana e fui a uma casa de acessórios de automóvel comprar outras correntes de neve, desta vez com com as dimensões apropriadas para os pneus da autocaravana. Não havia mas mandaram vir de Granada e chegaram ás nove da noite. São pesadonas e custou-me um bom bocado trepar com elas até ao hotel que ficava lá bem no alto. Com tudo escorregadio foi uma marcha de um passo em frente, dois para trás e alguns malhanços.
Segunda Feira- ALELUIA, um sol radioso sem uma nuvem no céu, sem vento. Os limpa neves já estavam em actividade. Um deslumbre. Mas, a saga estava ainda bem longe do fim. Fiz o chekout no hotel, pegamos na tralha e nas correntes e fomos para a paragem do autocarro que nos deixaria a uns dois kilómetros da autocaravana. Táxis não havia. Chega o autocarro e quando íamos a entrar o condutor vocifera a frase fatídica:- PERROS NO.
Quartel General em Abrantes, tudo na mesma como dantes. Outra vez no meio da rua quais indigentes. Não podiamos ir de autocarro, não havia taxis ( se os houvesse não sei se transportariam o cão) e não se podia ir a pé porque a autocaravana estava a vários kilómetros. A solução encontrada para contornar o problema foi dividir-nos em dois grupos. A minha mulher , o Tiago de seis anos e o cão velhinho ficaram à porta do Hotel, pois com o cão não se podia entrar. Eu e a minha sobrinha apanhamos o autocarro seguinte que nos deixou no cruzamento da estrada que conduzia à autocaravana. Aí novo balde de àgua fria:- O limpa neves não tinha passado nessa estrada e a neve tinha uns 70 cm de altura.
Já que estavamos a uns dois Km da autocaravana e já que tinhamos as correntes, enchemo-nos de coragem e começamos a subir a estrada para ir guardar as correntes na autocaravana e deixar de andar a transportar aquele pesadelo. Foi penoso andar cerca de 1,5Km enterrados na neve e eis que atrás de nós aparece um limpa neves a subir a estrada. Exultamos de alegria. O limpa neves passou por nós e continuou estrada acima até parar junto à autocaravana que estava a uns 500 mt. de distância, tal qual a tínhamos deixado; atravessada na estrada. Aí começou a fazer manobras em torno da autocaravana e depois continuou o seu caminho. Com a estrada já limpa de neve vencemos fácilmente os últimos 500 mt e eis a nossa menina. Cá está ela. Mas, ó sorte malvada, o limpa neves tinha-se aproximado tanto da autocaravana quelhe fez un rasgo vertical, na parte trazeira, com mais de meio metro de comprimento. Logo que chegue ao aldeamento turístico vou à polícia, pensei eu. Pensar, pensei ,mas enganei-me redondamente pois a saga iria continuar.
Colocamos as correntes, com uma pá improvisada retiramos a neve que o limpa neves tinha acumulado contra a autocaravana, dei á chave e eis-me finalmente ao comando da minha nave recuperada. Subimos a estrada com a intenção de fazer inversão de marcha logo que possível. Assim fiz, mas nessa manobra acabei por atolar a autocaravana porque o terreno estava verdadeiramente empapado. Valeram-nos as pranchas de plástico que andam sempre comigo. Inicio o regresso ao aldeamento e quando lá chego verifico que é proíbida a circulação de autocaravanas. Fico assim impedido de me aproximar do hotel e é a minha sobrinha que dá corda aos sapatos para ir lá chamar o resto da família. Estimei que seria meia hora de ída e outra meia de regresso e por isso tentei estacionar na “baixa” do aldeamento mas foi de todo impossível devido ás malditas barras de limitação de altura. Encostei.
Começa aqui a pior fase deste passeio à neve que acabou por me pôs os nervos em franja. Um polícia começa a apitar e manda-me saír dali. Bem tento explicar-lhe que estou à espera da família mas ele não se comove. Começo então a circular entre duas rotundas distantes uns 500 mt. uma da outra. Ao fim de uma meia hora a circular continuamente, outro polícia manda-me parar perguntando-me o que ando ali a fazer. Volto a explicar o que se passa mas o bom do homem não quer saber de desgraças e pura e simplesmente expulsa-me da povoação mandando-me seguir em direção a Granada.
Saio dali a cuspir fogo e desço para Granada procurando a primeira oportunidade para fazer inversão de marcha. Percorri 18 Km. até poder fazer inversão de marcha. Encontrei ao longo da estrada vários carros abandonados e despistados, quase invisíveis, tal era a quantidade de neve acumulada nas bermas. Depois de percorridos 36 Km estava novamente no ponto de partida e a família ainda não tinha chegado. Encostei. Não tardou muito vem uma mulher polícia ter comigo e mais uma vez conto a minha odisseia. Finalmente encontro um ser Humano que condescende a que possa esperar a família ali. Cerca das 14 horas de Segunda Feira estavamos finalmente todos reunidos quando a mulher polícia me pergunta o que ando a fazer com as correntes de neve montadas. Desmontei as correntes e o estado de espírito era tal que nem fiz a denúncia dos estragos causados pelo limpa neves. Saí dali a sete pés. Não há dúvidas de que me passei. Devo dizer que já voltei à Serra Nevada, mas no Verão. Chegou de neve.
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